Ofício envido ao Sr. Ministro da Cultura e Coordenação Científica por alturas do arranque das obras da Sede da Associação D.R.C. Moita do Boi

Ofício nº  (inventa-se)/82
Exmo. Sr.
Ministro da Cultura e Coordenação científica
   
 
    Antes de abordarmos o problema que motivou esta sobrecarga na V. correspondência, gostariamos de tecer certas considerações de ordem geográfica.
    A Moita do Boi é uma aldeia do concelho de Pombal com cerca de X habitantes. Apesar de há já mais de X anos termos uma estrada alcatroada, os transportes públicos continuam a morar longe de nós. Nesses transportes públicos circula a cultura a que não temos acesso. A informação escrita que nos chega resume-se a um ou outro semanário regional. A televisão e a rádio chegam-nos em intermitências devido à fraca intensidade da corrente eléctrica. Os nossos filhos deslocam-se quatro ou cinco quilómetros de bicicleta para irem beber um pouco de instrução ao Extrenato da Guia (Guia), estabelecimento de ensino esse muito mal dotado de meios técnicos, indo ao ponto de nem sequer possuir uma biblioteca, facto que torna as passagens mensais da carrinha da Fundação Gulbenkian por essa localidade num verdadeiro acontecimento cultural. A actividade cinematográfica resume-se a filmes cujo conteúdo deixa muito a desejar; impera a pornografia e a violência comercial.Quanto ao tearto... para quê falar de algo que não existe?
    (Perante este paronama, os nossos jovens desmotivam-se de cultivar a vontade de saber mais e mais, que é a pedra base do desenvolvimento humano, orientando-se para uma vida vegetativa da qual eles talvez não tenham consciência mas nós temos o direito e o dever de os livrar.
    Foi para reagir contra este estado de coisas que o povo desta aldeia, encarnado pela Associação Desportiva Cultural e Recreativa da Moita do Boi resolveu dotar esta terra de um salão polivalente onde se conjugue o desporto, a cultura e o recreio, o qual está neste momento em fase de arranque da obra que, uma vez a funcionar, iria beneficiar igualmente muitas aldeias vizinhas. Por cima deste salão na nossa futura sede social, pensamos instalar uma biblioteca que permita aos jovens (e a juventude é um estado de espírito) o acesso à literatura de qualidade, bem diferente da literatura fácil que quotidianamente os rodeia.
    Só que todo este conjunto de boas intenções por si só não chega, senhor Ministro. A esmagadora maioria da nossa população trabalha no campo e a vida não está fácil; ajudarão no mais que poderem mas não lhes podemos pedir o impossível. A Câmara de Pombal demonstra grande desinteresse por nós. A Junta de Freguesia também não pode fazer milagres. É por isso que resolvemos recorrer a V. Exª. mesmo sabendo que a pasta da cultura é um parente pobre nos OGEs.
    Sr. Ministro a nossa obra constitui um investimento cultural que visa só e apenas dar aos nossos filhos as (parte das) condições de vida de que não disfrutámos.
    Não mendigamos um subsídio, não o exigimos também.Pedimo-lo porque cremos que a nossa obra o merece.
    E assim terminamos pedindo desculpa pelo tempo que roubámos a V. Exª. expondo as nossas desditas.
    Com os mais calorosos cumprimentos